Imagem: Orquestra da Ópera, Edgar Degas, 1870


«O valor da arte, como o da Via Mística, está nos seus efeitos. Se apenas dá prazer, por mais espiritual que o prazer seja, isso não tem grandes consequências, pelo menos maiores consequências que uma dúzia de ostras e uma garrafa de Montrachet. Se é uma consolação, ainda está bem; o Mundo está cheio de males inevitáveis e é bom que o homem disponha de algum retiro onde possa isolar-se de vez em quando; mas não para escapar-lhes, e antes para reunir novas forças a fim de os enfrentar. Porque a arte, se tem de ser considerada como um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade. O valor da arte não é a beleza, mas a acção justa.»


«Exame de Consciência», William Somerset Maugham.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

FORTISSIMO


Deus enfurece-se e sufoca de raiva
ou talvez só durma no céu,
dorme ou está por certo morto -
homens, quem o acordará?
Mães, chorai mais forte:
sobressaltará um choro frágil
quem não despertam tantos canhões?
E não choreis lágrimas,
que as lágrimas só caem na terra,
chorai, gritando, contra o céu,
chorai sem piedade:
não docemente como a fonte,
não como a música da tempestade,
não como o velho Níobe:
mas como torrentes que transbordam
chorai, ou avalancha
que rola, chorai gelo
fogo chorai como a lava!
Os filhos queridos caem,
dia após dia, na neve, em sangue.
Não deixeis dormir ninguém:
quem hoje cala é malvado ou cobarde -
mas vale a pena ter medo?
e vale a pena viver?
Oh, porque não se ouvem nossas vozes?
Ide chorar para o mercado,
vociferai nas igrejas,
mulheres de selvagens, selvagens
tornadas em frenética, louca
oração!

          E se não forem
choro e oração, nós homens,
sabemos ainda blasfemar! Doravante,
acreditamos valer a pena blasfemar
contra a grandeza adormecida no Destino.
Lancemos contra seu sono ruidosa
granizada de blasfémias!
Porque existe, se não existe? Porque não existe, se existe?
Reneguemo-lo, talvez acorde!
Sacudamo-lo, atinjamo-lo com palavras!
Qual patrão roncando na casa
em fogo, surdo é Deus!
Surdo! Surdo!...

          Oh, que bom seria,
hoje, sermos surdos como Deus!
Surda a terra, que não sente nas costas
o marchar humilhante dos exércitos.
Seria melhor germinar surdamente
como bolbo de planta sobre a terra:
tudo é surdo, na terra, em Deus,
só o homem escapou do
Deus surdo para os horrores,
dele saiu a modo de verme,
verme de Deus, para um formigar
de comichões, para doer - porque
o que não é Deus é surdo e sofrimento,
até que de novo morre em Deus.

Fevereiro de 1917

Babits Mihály (1883 - 1941), in Antologia da Poesia Húngara, tradução de Ernesto Rodrigues.
Imagem: La Mitrailleuse, 1915, Christopher Wynne Nevinson.

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