Imagem: Orquestra da Ópera, Edgar Degas, 1870


«O valor da arte, como o da Via Mística, está nos seus efeitos. Se apenas dá prazer, por mais espiritual que o prazer seja, isso não tem grandes consequências, pelo menos maiores consequências que uma dúzia de ostras e uma garrafa de Montrachet. Se é uma consolação, ainda está bem; o Mundo está cheio de males inevitáveis e é bom que o homem disponha de algum retiro onde possa isolar-se de vez em quando; mas não para escapar-lhes, e antes para reunir novas forças a fim de os enfrentar. Porque a arte, se tem de ser considerada como um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade. O valor da arte não é a beleza, mas a acção justa.»


«Exame de Consciência», William Somerset Maugham.


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Poema das Sete Faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

3 Sonetos de Keats


I.
On First Looking into Chapman's Homer

Much Have I travelled in the realms of gold,
And many goodly states and Kingdoms seen;
Round many western islands have I been
Which bards in fealty to Apolo hold.
Oft of one wide expanse had I been told
That deep-browned Homer ruled at his demesne;
Yet did I never breathe its pure serene
Till I heard Chapman speak out laud and bold.
Then felt I like some watcher of the skies
When a new planet swims into his ken;
Or like stout Cortez when with eagle eyes
He stared at the Pacific, and all his men
Looked at each other with a wild surmise-
Silent, upon a peak in Darien.

Pela Primeira Vez Lendo a Tradução de Chapman de Homero [1ª. versão]

Pelos reinos de oiro já muito viajei,
E muitos belos reinados e estados vi;
Por ilhas ocidentais inúmeras vezes naveguei:
Fidelidade a Apolo guardam os poetas de aí.
Mas muitas vezes uma vasta terra me foi narrada
Em que impera Homero, de fronte profunda;
Porém nunca eu sua serenidade pura encontrara
Até ouvir de Chapman a voz alta e ousada.
Senti-me então como alguém que observa os céus
Quando um novo planeta voa ao seu conhecimento;
Ou como o bravo Cortez quando viu com os olhos seus
Como uma águia, o Pacífico, e por um momento
Todos seus homens de louco espanto se miraram-
Silenciosos em Darien, quando o cume alcançaram.


Pela Primeira Vez Lendo a Tradução de Chapman de Homero [2ª. versão]

Pelos reinos de oiro já muito viajei,
E muitos belos reinados e estados vi;
Por ilhas ocidentais inúmeras vezes naveguei:
Fidelidade a Apolo guardam os poetas de aí.
Mas muitas vezes uma vasta terra me foi narrada
Em que impera Homero, de fronte profunda;
Porém nunca eu sua serenidade pura encontrara
Até ouvir de Chapman a voz alta e ousada.
Senti-me então como alguém que observa os céus
Quando um novo planeta voa ao seu conhecimento;
Ou como o bravo Cortez quando viu com os olhos seus
Como uma águia, o Pacífico, e por um momento
Todos seus homens se miraram espantados-
Sobre um cume em Darien, silenciados.


II.
Bright Star

Bright star! Would I were stedfast as thou art-
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors;
No - yet sill stedfast, still unchangeable,
Pillowed upon my fair love's ripening breast,
 To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever - or else swoon to death.


Estrela Cintilante

Estrela Cintilante! Fora eu como tu constante-
E não suspenso em solitário esplendor nocturno
De pálpebras abertas, observando eternamente
Como um paciente da natureza ou eremita sem sono
As movediças águas, em sua missão peregrina
De ablução ao largo das humanas encostas da Terra,
Ou as fofas máscaras de neve mirando de cima,
Recém caídas na montanha ou na charneca;
Não. Mas quedar-me constante, quedar-me imutável,
No seio belo e maduro da minha amada acostado,
Sentindo sua suave inclinação, sua forma agradável,
Numa doce inquietude para sempre acordado,
Escutando-a bem quieto, ternamente a inspirar,
E assim viver para sempre - ou para a morte deslizar.



III.
Why did  I laugh to-night?

Why did I laugh to-night? No voice will tell;
No God, no Demon of severe response,
Deigns to reply from Heaven or from Hell.
Then to my human heart I turn at once-
Heart, thou and I are here sad and alone;
Say wherefore did I laugh? Oh, mortal pain!
Oh, darkness, darkness! Ever must I moan,
To question Heaven and Hell and Heart in vain!
Why did I laugh? I know this being's lease
My fancy to its utmost blisses spreads;
Yet could I on this very midnight cease,
And the world's gaudy ensigns see in shreds.
Verse, fame, and beauty are intense indeed,
Buth Death's intenser - Death is Life's high meed.


Porque me ri eu esta noite? [1ª. versão]

Porque me ri eu esta noite? Nenhuma voz o dirá;
Nenhum Deus ou Demónio de resposta severa,
Do Céu ou do Inferno, a replicar-me se dignará.
Para o meu humano Coração então me volto sem demora-
Meu Coração, tristes e sós pr'aqui estamos tu e eu;
Diz-me então porque me ri? Ó agonia mortal!
Ó escuridão, escuridão! Sempre este queixume meu,
Interrogando Céu, Inferno e Coração. Nenhum sinal! 
Porque me ri eu? Sei que a libertação deste meu ser
A minha fantasia até ao fundo do seu deleite espande;
Porém poderia eu nesta mesma meia-noite perecer,
E ver do mundo as ofuscantes insígnias rasgadas, distante.
Versos, fama e beleza coisas são de facto intensas.
Mas a Morte é-o mais - é da Vida a maior das recompensas.


Porque me ri eu esta noite? [2ª. versão]

Porque me ri eu esta noite? Nenhuma voz o dirá;
Nenhum Deus ou Demónio de resposta severa,
Do Céu ou do Inferno, a replicar-me se dignará.
Para o meu humano Coração então me volto sem demora-
Meu Coração, tristes e sós pr'aqui estamos tu e eu;
Diz-me então porque me ri? Ó agonia mortal!
Ó escuridão, escuridão! Sempre este queixume meu,
Interrogando Céu, Inferno e Coração. Nenhum sinal!
Porque me ri eu? Sei que a libertação deste meu ser
A minha fantasia até ao fundo do seu deleite espande;
Porém poderia eu nesta mesma meia-noite perecer,
E ver do mundo as ofuscantes insígnias rasgadas, distante.
Versos, fama e beleza intensas coisas são deveras,
Mas a Morte é-o mais - é da Vida a maior das quimeras.

  
    Tradução minha. Como pode o leitor constatar, apresento para o primeiro e último soneto duas versões de tradução possíveis, mudando apenas, em ambos os casos, os dois últimos versos. Na impossibilidade de decidir qual a melhor, e considerando que ambas as versões são, apesar das diferenças, bastante fiéis ao original, deixo ao critério de quem lê a escolha entre a opção que mais lhe agrada.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

FORTISSIMO


Deus enfurece-se e sufoca de raiva
ou talvez só durma no céu,
dorme ou está por certo morto -
homens, quem o acordará?
Mães, chorai mais forte:
sobressaltará um choro frágil
quem não despertam tantos canhões?
E não choreis lágrimas,
que as lágrimas só caem na terra,
chorai, gritando, contra o céu,
chorai sem piedade:
não docemente como a fonte,
não como a música da tempestade,
não como o velho Níobe:
mas como torrentes que transbordam
chorai, ou avalancha
que rola, chorai gelo
fogo chorai como a lava!
Os filhos queridos caem,
dia após dia, na neve, em sangue.
Não deixeis dormir ninguém:
quem hoje cala é malvado ou cobarde -
mas vale a pena ter medo?
e vale a pena viver?
Oh, porque não se ouvem nossas vozes?
Ide chorar para o mercado,
vociferai nas igrejas,
mulheres de selvagens, selvagens
tornadas em frenética, louca
oração!

          E se não forem
choro e oração, nós homens,
sabemos ainda blasfemar! Doravante,
acreditamos valer a pena blasfemar
contra a grandeza adormecida no Destino.
Lancemos contra seu sono ruidosa
granizada de blasfémias!
Porque existe, se não existe? Porque não existe, se existe?
Reneguemo-lo, talvez acorde!
Sacudamo-lo, atinjamo-lo com palavras!
Qual patrão roncando na casa
em fogo, surdo é Deus!
Surdo! Surdo!...

          Oh, que bom seria,
hoje, sermos surdos como Deus!
Surda a terra, que não sente nas costas
o marchar humilhante dos exércitos.
Seria melhor germinar surdamente
como bolbo de planta sobre a terra:
tudo é surdo, na terra, em Deus,
só o homem escapou do
Deus surdo para os horrores,
dele saiu a modo de verme,
verme de Deus, para um formigar
de comichões, para doer - porque
o que não é Deus é surdo e sofrimento,
até que de novo morre em Deus.

Fevereiro de 1917

Babits Mihály (1883 - 1941), in Antologia da Poesia Húngara, tradução de Ernesto Rodrigues.
Imagem: La Mitrailleuse, 1915, Christopher Wynne Nevinson.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Emily Sparks


«Where is my boy, my boy-                                                                                 
In what far part of the world?
The boy I loved best of all in the school?-
I, the teacher, the old maid, the virgin heart,                                      
Who made them all my children                                                                      
Did I know my boy aright,
Thinking of him as a spirit aflame,
Active, ever aspiring?                              
Oh, boy, for whom I  prayed and prayed
In many a watchful hour at night,                   
Do you remember the letter I wrote you
Of the beautiful love of Christ?                       
And whether you have took it or not,             
My boy, wherever you are,                           
Work for your soul's sake,                                       
That all the clay of you, all the dross of you,          
May yield to the fire of you,                                      
Till the fire is nothing but light!...                             
Nothing but light!»


«Onde está o meu rapaz, o meu rapaz -                                            
Em que longínqua parte do mundo?
O rapaz que mais amai entre todos na escola?-
Eu, a professora, a solteira velha, a virgem de coração,
Que fiz de todos eles meus filhos.
Terei conhecido bem o meu rapaz,
Supondo-o de espírito ardente,
Activo, aspiando sempre?
Ah, rapaz, por quem rezei e rezei
Em tantas horas de nocturna vigília,
Lembras-te da carta que te escrevi
Sobre o sublime amor de Cristo?
E, quer a tenhas ou não percebido,
Meu rapaz, onde quer que te encontres,
Trabalha pela salvação da tua alma,
Que todo o barro em ti, que todo o pior de ti
Possa ceder ao fogo que há em ti,
Até que o fogo seja nada senão luz!...
Nada senão luz!».


Spoon River Anthology, Edgar Lee Masters, 1915.
Tradução e sublinhado/itálico meus.