Imagem: Orquestra da Ópera, Edgar Degas, 1870


«O valor da arte, como o da Via Mística, está nos seus efeitos. Se apenas dá prazer, por mais espiritual que o prazer seja, isso não tem grandes consequências, pelo menos maiores consequências que uma dúzia de ostras e uma garrafa de Montrachet. Se é uma consolação, ainda está bem; o Mundo está cheio de males inevitáveis e é bom que o homem disponha de algum retiro onde possa isolar-se de vez em quando; mas não para escapar-lhes, e antes para reunir novas forças a fim de os enfrentar. Porque a arte, se tem de ser considerada como um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade. O valor da arte não é a beleza, mas a acção justa.»


«Exame de Consciência», William Somerset Maugham.


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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um Adeus a J.D. Salinger (1919-2009)

    Acabo de saber da morte, aos 91 anos e ao que parece de causa natural, de Jerome David Salinger (1 de Janeiro de 1919 - 27 de Janeiro de 2009). E proponho-me por isso a escrever de improviso um epitáfio pessoal de um dos escritores mais interessantes, pessoais e originais que já li e também um dos mais significativos da literatura americana de todo o século XX.
    Li Salinger pela primeira vez apenas o ano passado, mal sabia eu que nas vésperas da sua morte, e a experiência foi marcante. 2009 foi o meu Ano Salinger, sem dúvida o escritor que mais poderoso que li nos últimos tempos. Comecei pelo Franny and Zooey, continuei com as Nine Stories e acabei com o Catcher in the Rye. Tive, em Franny and Zoey, o indescritível espanto e horror de encontrar a primeira personagem que considero quase igual a mim  (ou, pelo menos, para parafrasear Pessoa sobre Bernardo Soares, um "eu" sonolento, isto é, com as faculdades de raciocínio e afectividade diminuídas) - refiro-me a Zooey.  Abstenho-me portanto, por imperativo de cavalheiresco decoro, de o descrever, mas não deixo de recomendar a leitura desse livro magistral, bem como, já agora, de todos os outros.
    Um dos grandes méritos de Salinger prende-se, quanto a mim, na ênfase que coloca não na narração de acções dramáticas concretas e tangíveis do mundo exterior que nos cerca e nos comove (uma discussão violenta, uma morte inesperada, um suicídio trágico, um desentendimento amoroso, uma traição imperdoável, um pedido de casamento, etc...), mas na descrição aparente de não-acções: parece que nada se vai passando enquanto vivemos esquizofrenicamente no mundo íntimo das personagens. Não me interpretem mal: há na obra de Salinger (refiro-me, obviamente, apenas ao que li) muita coisa disto tudo, mas tudo se passa de maneira tão interiorizada, subtil; tudo é narrado e descrito com um ritmo e um estilo tão energéticos e que tão vigorosamente entretêm, que de reprente somos confrontados, como se de uma surpresa se tratasse, com uma discussão, uma morte, um suicídio, um desentendimento, etc... E depois apercebemo-nos que caminhámos todo esse percurso lado a lado com a personagem, cumplicemente. Ficamos estarrecidos por não nos termos apercebido do que era tão evidente, do que estava lá à vista de todos, do que aí vinha. Com o facto de o desfecho não poder ser senão aquele, aparentemente tão estranho, e  nós leitores,  somos dessa forma inaceitavelmente levados a partilhar das personagens  o destino, quase como se tivéssemos culpa. Perguntamo-nos como foi possível que não tivéssemos visto, que não nos tenhamos apercebido, de que modo tão ingénuo deixámos que nos conduzissem até ao ponto em que parece impossível que tenhamos chegado e ao qual, no entanto, e sem margem para dúvidas, nos encontramos. E a isto tudo eu respondo: estávamos demasiado entretidos, estávamos a gozar demasiado a coisa, a personagem, a situação; estávamos de tal modo por dentro de tudo que, paradoxalmente, nos alheámos. Distraímo-nos absortamente e tornámo-nos ausentes e fomos andando para a frente sem darmos por isso. Tanto que não pudemos ou não quisémos ver o que aí vinha. Não sei que artes mágicas são estas, mas isto não acontece por acaso. Salinger sabe como brincar com o leitor.
    Outro aspecto importante do universo ficcional de Salinger é a irracionalidade aparente dos comportamentos das suas personagens, que desesperariam qualquer déspota totalitário ou arquitecto socialista de organização de padrões sociais e comando de comportamentos. E desse modo esdrúxulo, mas marcante, Salinger deve considerar-se como um ícone da liberdade: da liberdade de acção, de erro, e até de destruição... em suma, liberdade de todos nós para fazermos o que nos der na real gana em relação a nós próprios. Claro que o resultado previsível e frequente dessa premissa é a inevitabilidade de uma auto-destruição, real ou metafórica, de uma perda, de um desenraizamento. Mas há também uma beleza trágica, uma catarse triste, um último recurso nesse extremo de liberdade niilista que é muitas vezes o único caminho para uma reflexão profunda sobre o destino que escolhemos ou que a vida escolheu por nós.
    Ora isto pode ser muito mal interpretado: é por exemplo sabido que o assassino de John Lennon (que não vou nomear, respeitando assim o inteligente pedido de Yoko Ono para que a posteridade o não faça, castigando-o desse modo com a negação da notoriedade que visou alcançar com o seu acto infame) tinha The Catcher in the Rye  por livro favorito,  chegando mesmo a conseguir um autógrafo assinado do autor justamente na manhã em que cometeu o crime. Naturalmente que ao longo do tempo muita gente tem tendado de diversas formas associar causalmente a leitura do livro com esses ímpetos assassinos. Por minha parte, creio que a literatura de Salinger tem tanto a ver com as razões de um assassino quanto o gosto pelo cinema com as de um racista, ou a música clássica com um pedófilo. O mundo está cheio de loucos e depravados e, surpresa das surpresas, sempre esteve. Caim não precisou de ir ao cinema  ou de ler Saramago pela pensar em matar alguém, ao contrário, talvez, de muita gente...
    O que Salinger mostrava era tão somente que as pessoas não agem como devem, porque ísto ou aquilo é esperado delas ou porque a razão dita que é assim que se faz. Pelo menos não agem sempre assim. Muitas vezes as pessoas agem assim  porque assim agem. Não porque devem ou não devem. Mas porque sim. Porque lhes apeteceu, porque lhes pareceu bem. Sem saber porquê. E esta importância dos motivos irracionais ou de razão oculta a raiar o absurdo é um dos traços mais poderosos da arte de Salinger, que a este respeito muito foi beber a Dostoievsky. É também uma das verdades mais pungentes do nosso mundo, cujos dramas interiores espelhou como ninguém. Mas isso não faz de todos nós assassinos. Torna-nos apenas, talvez apenas um pouco menos cegos e certamente muito mais lúcidos em relação ao mundo e a nós mesmos. 
    Salinger foi ainda um mestre consumado do diálogo, que, talvez como nenhum outro escritor em língua inglesa do século XX, contribuiu para modernizar, coloquializando-a com o mais puro e delicioso calão americano. Utilizou esse calão prolificamente e com revolucionário talento e jogou com grande originalidade com a reprodução do diálogo tal como é falado, com todas as nuances quotidianas e as sonoridades peculiares e características do uso descuidado e distraído - que é como as pessoas, todos nós, falamos-, obtendo com isso espetaculares efeitos.
   O resultado final é uma galeria de personagens nervosas, complexas, contraditórias, instáveis, monomaníacas e meio-loucas, inquietas e perdidas, em si, no mundo, em parte incerta. Algumas procuram consolo no misticismo, outras na austera renúncia e na misantropia e outras ainda na perdição do turbilhão de um mundo que não compreendem mas que anseiam por experienciar até ao desgaste, ao excesso, à violência do esquecimento de si. E enquanto fazem tudo isto - sempre ansiosas, sempre em busca de um estímulo, de alguma nova sensação, de alguma resposta - lá vão elas dialogando, berrando, praguejando...mas sempre com um engenho, um acerto e um tacto que é um gosto, um triunfo! A gramática não escrita da coloquialidade literária é deleitosamente adulterada, o velho código do embelezamento e da transposição elegante da vida para a arte, destruído e reconstruído. Velhos modismos estilhaçados, superados, obsoletos e novas possibilidades inventadas, aplicadas  e ampliadas. E que bem que tudo resulta! Goddam it!
   É bem verdade que Salinger já estava, em certo sentido, morto. Artisticamente, isto é. Nada escrevia desde 1965 e parace ter sido durante toda a vida o espelho das complexidades e desrazões que compôs nas suas personagens. Refugiou-se na sua solidão misantrópica e num silêncio de mais de quatro décadas. «Há uma paz maravilhosa quando não se publica. É pacífico.», afirmou numa entrevista telefónica em 1974. O seu refúgio de New Hampshire, mais ou menos ao estilo de Herculano, foi uma renúncia significativa ao apelo das massas e um repúdio dos traços populistas de uma época de ídolos, que Salinger nunca quis ser.
    Mas se a sua reclusão mediática pode ter esta leitura, já o seu silêncio criativo foi, à moda de Sibelius, enigmático, mesmo inexplicável.  No apogeu das suas faculdades criativas, a sua abrupta retirada de cena, à maneira de Bobby Fischer, teve os laivos de um desgosto, os sabores de uma amargura.
     E é por isso também que o dia de hoje é mais triste. Pelo irremediável do silêncio, pela irreversibilidade do momento, pelo irredimível da recusa. A última página da vida Salinger volta-se assim desse modo inesperado e ironicamente trágico, salingeriano, de um romance cujo desenlace longamente aguardado, pressentido, necessário... se perde para sempre na imensidão dos tempos sem tempo, para sempre levado para um outro lado da vida, onde talvez ainda se esteja escrevendo. Como se o escritor ainda nos pudesse de alguma forma dizer, como Zooey à sua irmã Franny, no final de Zooey: «O.K, I'll be right back. Don't move», e nós, como ela espectantes, continuássemos falando, à espera de sermos ouvidos enquanto falamos, ou ouvindo-nos a nós próprios enquanto lemos das personagens que tanto nos dizem algo muito importante e profundo acerca de nós próprios.
    Mas o mais sensato é fazermos aqui as nossas despedidas, aceitar o inevitável e fechar este livro com a certeza de uma lição aprendida. Ou será que não? A questão impõe-se: poderá Salinger ainda surpreender-nos, à maneira de Pessoa, com uma arca do tesouro? Será que um dos maiores vultos da literatura americana poderia ficar quarenta anos sem escrever absolutamente nada, num silêncio mortal? Ou será que, na lógica do seu espírito de amor ao recato, tinha apenas uma aversão, que aliás chegou a expressar, à exposição que qualquer publicação necessariamente representa? Será que vamos assistir, na hora da sua morte, ao milgare do seu renascimento?
    As especulações são legítimas, mas Salinger já nos ensinou que as esperanças podem ser muito facilmente defraudadas.
    Mantemos pois as nossas despedidas tristes e comovidas, mas acrescentamos-lhes uma espécie de desejo, um resquício de esperança. Porque  nem sempre agimos como deveríamos ou como seria expectável que agíssemos. Porque sim, porque nos apeteceu, porque nos parece bem. Sem saber porquê. E Salinger também nos ensinou isto.
    Goodbye Mr. Salinger. Hope I'll see ya round.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A thing of beauty is a joy forever

    Uma coisa bela é uma alegria eterna. Com este verso, celebrado entre os seus versos celebrados, inicia o jovem John Keats o seu romance poético Endymion, a sua obra mais ambiciosa e pessoal, que conta, no encantamento mágico dos seus versos sublimes,  a história de um jovem que se apaixona melancolicamente pela beleza impossível da lua.
    Esse jovem é John Keats, o eterno apaixonado, o jovem eterno. Nascido em 1795, veio a falecer vinte e cinco anos depois, em 1821, ficando para o mundo como um dos maiores poetas do Romantismo europeu, um dos maiores de todos os tempos.
    A geração daqueles que entraram para a história como os poetas românticos ingleses - Wordosworth, Coleridge, Shelley, Byron e Keats - transformou radicalmente a face da arte europeia em finais do século XVIII e inícios de século XIX. Foi um período áureo em vários ramos da criação, e se Wordsworth, o seu grande predecessor, foi ainda contemporâneo de Mozart, Keats nasceu depois e morreu antes de Beethoven (1770-1827). Tal como o grande mestre de Bona, sonhavam ingenuamente os românticos ingleses com um Homem novo, mais puro, mais livre. Livre das amarras das superstições que atavam o espírito à religião, livres das grilhetas sociais que amordaçavam todas as ânsias e todos os desejos ao triunfo na luta  pela conquista do pão, pela sobrevivência. As Revoluções Americana e Francesa lançavam no espírito ardente dos jovens intelectuais de então a promessa de uma liberdade mais fraterna e maior, de uma igualdade mais humana. O desejo de mudar o mundo era frequentemente acompanhado pela genuína crença na possibilidade de o fazer. E o mundo estava de facto a mudar, com todas as consciências jovens e activas, todas as inteligências sensiveís sentindo que deviam conduzir eles próprios, a seu modo, a mudança. Lord Byron morreu na luta pela independência de Grécia contra o opressor Otomano. Beethoven dedicou iludidamente a sua Sinfonia Heróica ao jovem general Bonaparte, julgando ver no futuro tirano o grande apóstolo da Liberdade nova de um mundo novo. Não interessa aqui discutir de que modo provou o tempo serem certos ou errados alguns dos ideais que estes jovens perfilhavam, das esperanças que acalentavam, dos hinos que bradavam. O que interessa é que os perfilhavam, as acalentavam, os bradavam. Com toda a ânsia genuína das suas almas. Era esse o zeitgeist. E que belo, entusiasmante, novo e rico de possibilidades devem tê-lo então sentido.
    Mas Keats não era Byron. Ele é o único dos grandes poetas românticos ingleses que se dedicou apenas à poesia, o único cuja crença primária eram apenas Arte e na Beleza. O único que é lembrado não só como grande poeta, mas também como imortal teórico da poesia, anotando na sua correspondência displicentemente o seu contributo tão original e tão raro, em missivas dirigida a familiares ou amigos. O resultado é ter-se tornado o epistolário de Keats num indispensável clássico sobre estética poética no universo académico e cultural anglo-saxónico.
    Beauty is truth, truth beauty,- that is all. Beleza e Verdade. Escreveu-o na Ode a Uma Urna Grega. Era tudo o que importava para Keats. Defendeu a autonomia da arte em relação à moral e a da verdade em relação à razão. Porque, para chegar à Verdade, o homem precisa apenas dos dois instrumentos mais importantes que Beleza lhe oferece: a sensação e a imaginação.
    Não consigo exagerar a importância que estes conceitos tiveram para mim desde a primeira vez que os li, o choque da sua novidade e o modo como ficaram para sempre comigo. A imaginação como uma forma de verdade. A sensação como um seu instrumento. A contemplação como um prazer em si mesmo, que não se esgota com a posse do objecto. Uma pessoa pode, como em tudo, ler isto de várias maneiras. Pode achar enfadonho, pode achar piada, pode até perceber e simpatizar. E depois pode ler, mesmo ler a sério, reflectir, interiorizar, deixar a marinar na alma. Depois disso a nossa vida muda. É uma epifania, uma revelação. É a descoberta do valor da emoção pela emoção, da meditação e da poesia.
    Reflectindo sobre tudo isto, apercebi-me mais tarde que é a imaginação que distingue o Homem dos animais. É a capacidade de usufruir conscientemente das suas sensações e de meditar sobre elas que nos torna especiais. Não são as faculdades de nos organizarmos, de trabalharmos em conjunto, de cooperarmos, até de comunicarmos ou de vivermos em sociedade. Isso são os meios indispensáveis para vivermos, que devem o melhor possível ordenados, para serem depois o mais rapidamente possível esquecidos. São os meios, não o fim. Também as abelhas, as formigas e os pássaros se organizam em sociedade e têm códigos e instintos de actuação para situações específicas. Também os leões têm hierarquias e os elefantes uma espécie de noção de comunidade. O que distingue o Homem é o ser sozinho, ou o também poder ser sozinho. O poder ver a lua no céu à noite e perceber, de si para si, sentindo, imaginando e meditando, que assiste a uma coisa bela. É o ter consciência desse sentimento, o saber nomeá-lo. Para mim isto é pelo menos parte da verdade, pelo menos parte da razão por que estamos cá. Para sentir o mais possível, o melhor possível. Para aprendermos desse modo a saber as coisas por dentro, em nós, e não apenas a sabermos o que são ou para que servem. É para abrimos os olhos e aprendermos, não tanto a ver, mas a olhar. Porque o que se vê, é sempre o mesmo. O que muda não é o objecto, o que importa não é o objecto. É que só se aprende a ver quando se aprende a olhar. É o olhar que importa.
    Repito as lições de Keats: a imaginação como uma forma de verdade, a sensação como um seu instrumento, a contemplação como um prazer em si mesmo, que não se esgota com a posse do objecto.
    Porque Keats percebeu o que Pessoa nunca conseguiu: que o Homem não pode decifrar o mistério. O Homem habitará sempre em, viverá sempre com, e finalmente morrerá sempre na presença da Dúvida, a eterna dúvida, a tormentosa dúvida. Ninguém sabe porque estamos aqui, de onde viemos,  para onde vamos. Ninguém. O mistério é indecifrável. O que Keats nos ensina - e é tão incalculavelmente precioso, tão transcendentalmente importante que o saibamos - é a perguntarmo-nos isto: Porque te inquietas e preocupas? Porque tens dúvidas e incertezas? Porque tens de querer saber? Porque tens de querer explicar? Será que não vês a beleza disto tudo, o romantismo do mistério, a atração do insondável? Imagina, sente e contempla a beleza disto tudo tal e qual como é, sem explicações, sem sofrimento. Aprende a aceitar o mistério, a viver com ele, a regozijar-te nele: toda a verdade do mundo está nisto e encontrarás nas tuas sensações mais verdade que em todas as ciências.
    Keats deu um nome a esta capacidade do Homem para aceitar a dúvida e a incerteza: Negative Capability, a Capacidade Negativa. Capacidade de não buscar para tudo a explicação dos factos e da razão, ou muito simplesmente, de não buscar para tudo uma explicação.
    Quando morreu tuberculoso, novíssimo, pobre, sonhador, Keats era apenas um poeta reconhecido entre os seus amigos próximos e uma franja minoritária de intelectuais ingleses. Ao longo do tempo, à medida que os seus originais dispersos e a sua obra epistolográfica se foram tornando conhecidas, a sua reputação foi crescendo. Todo o movimento oitocentista finiessecular da arte pela arte - o esteticismo - viu nele o seu santo patrono, o seu mártir sagrado. Oscar Wilde adorava-o acima de qualquer outro poeta, à excepção talvez de Shakespeare. Para todos os poetas que escrevem em lingua inglesa John Keats é sinónimo de Romantismo, e o seu nome está provavelmente elevado acima de qualquer outro desse período de grandes entre os grandes poetas. A sua poesia é sinónimo de Beleza, a sua vida de Verdade. Viveu e morreu pela causa da poesia. Hoje é imortal.


After dark vapours have opressed our plains

After dark vapours have opressed our plains
For a long, dreary season, comes a day
Born of the gentle South, and clears away
From the sick heavens all unseemly stains.
The anxious mounth, relieving from its pains,
Takes as a long-lost right the feel of May,
The eyelids with the passing coolness play,
Like rose leaves with the drip of summer rains.
And calmest thoughts come round us - as of leaves
Budding - fruit ripening in stillness - autumn suns
Smiling at eve upon the quiet sheaves -
Sweet Sappho's cheek - a sleeping infant's breath - 
The gradual sand that through an hour- glass runs-
A woodland rivulet - a Poet's death.


Depois que negras nuvens oprimiram nossos prados

Depois que negras nuvens oprimiram nossos prados
Durante uma longa, uma seca estação, um dia chega
Nascido do sul gentil, e que p'ra longe leva
Dos céus adoentados, todos os resíduos indesejados.
Aliviado de tormentos, desponta o mês feliz
No sentimento de Maio, como num direito esquecido,
E na brisa que passa vão as pestanas brincando,
Como botões de rosa com as gotas de chuvas veranis.
E benignos pensamentos nos acercam - como folhas
Germinando - frutos em silêncio amadurecendo- sóis 
Outonais sorrindo de véspera para faunas tranquilas-
De Safo a doce bochecha - um bebé que dorme nos lençóis -
A areia que corre, deslizando a passo na ampulheta-
Um rio por entre a selva, a morte de um Poeta.


    Pretendo escrever em breve um pouco mais sobre Keats, ou pelo menos traduzir algumas das suas cartas e alguns dos seus poemas, tal como fiz com este poema, o meu soneto de Keats preferido. Espero ter captado o interesse dos meus leitores para os artigos que se seguem. A imagem deste artigo é da mascára mortuária do poeta, realizada pouco tempo depois da sua morte, no dia 23 de Fevereiro de 1821, distante de nós 189 anos daqui a cerca de um mês.